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o palco mais caro do mundo e a cultura que não pede licença

  • Foto do escritor: Raphaella Dias
    Raphaella Dias
  • 8 de fev.
  • 4 min de leitura

Tem eventos que são esporte. E tem eventos que viram ritual cultural. O Super Bowl já faz tempo que passou desse limite: é o dia em que futebol americano, entretenimento, publicidade e cultura pop se misturam num pacote só — e o mundo inteiro para pra assistir. É o momento em que a América decide o que vai ser assunto amanhã.


E aí entra o ponto que mais me interessa como Branding: o Super Bowl é um dos poucos lugares em que dá pra ver, em tempo real, quanto vale atenção e quanto vale cultura.



atenção se compra. cultura se constrói.


Em 2026, o preço de 30 segundos de anúncio chegou a US$ 10 milhões. Sim, só pra entrar na conversa. Só que a parte interessante é que, mesmo com esse investimento todo, não é o comercial que vira história por si só. O que fica é quando uma marca (ou um artista) consegue fazer o público sentir: isso é sobre mim, isso tem verdade.


E o show do intervalo é o ápice dessa disputa, porque ali é sobre representatividade.


o intervalo é o “centro” do mainstream


O halftime show virou um palco simbólico. Um lugar onde a cultura pop se organiza, onde a indústria mede pulso, onde o país se enxerga. E tem um detalhe que quase sempre passa batido: artistas não vão pra lá pelo cachê, a lógica é outra. É exposição, escala, memória cultural. Ou seja: enquanto marcas compram segundos, o artista “compra” (ou conquista) um lugar no imaginário.


E o Bad Bunny usou esse palco do jeito mais direto possível: sem suavizar o que ele é pra caber.


Bad Bunny no Super Bowl: quando o palco precisa se adaptar à sua cultura


O que ele fez foi histórico por um motivo simples: foi a primeira performance do halftime totalmente/predominantemente em espanhol na história do evento. E ele não “traduziu” Porto Rico pro público. Ele levou Porto Rico como é: códigos, estética, energia, referências. Um detalhe que resume bem esse lugar de orgulho e pertencimento: a presença de interpretação em Língua de Sinais Porto-riquenha (LSPR) — um marco de representatividade dentro do próprio território cultural dele.


E antes mesmo do show, ele já tinha deixado claro qual era a intenção: não é sobre “todo mundo entender tudo”. É sobre todo mundo sentir. Tanto que ele respondeu à pressão do “aprender espanhol” com um: “melhor aprender a dançar”.


Isso, pra mim, é uma aula de posicionamento: não é agressivo, não é panfleto, é autenticidade.



DeBÍ TiRAR MáS FOToS


Porque o Super Bowl dessa semana não surgiu do nada. Ele é continuação do que o Bad Bunny já vinha dizendo com o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS (lançado em 5 de janeiro de 2025). O título (“eu devia ter tirado mais fotos”) é quase um gatilho de memória: sobre perceber tarde, sobre registrar, sobre valorizar o que forma a gente. E o projeto inteiro funciona como uma carta de amor pra Porto Rico, tanto na sonoridade quanto no conteúdo — com mistura de reggaeton e ritmos tradicionais porto-riquenhos e uma atenção real à cultura local. Ao mesmo tempo, o disco também toca em temas bem concretos do território: gentrificação, identidade cultural, o status político da ilha e o que acontece quando um lugar vira “produto” pros outros.


E aí vem um dado que sela a importância cultural disso tudo: em 1º de fevereiro de 2026, o álbum ganhou Album of the Year no Grammy, se tornando o primeiro álbum totalmente em espanhol a ganhar a categoria. A AP tratou esse momento como algo que vai além da música — como símbolo e força num contexto em que comunidades latinas estão no centro de disputas culturais e políticas nos EUA.


Então quando ele sobe no palco do Super Bowl, ele não está “aparecendo”. Ele está amarrando um arco: memória, território, orgulho, presença global.


o que isso ensina pra marcas?


Eu gosto de pensar nisso como um recado simples:

autenticidade não é “ser você mesmo” no abstrato. Autenticidade é ser específico. É sustentar seus códigos quando o mundo pede que você seja mais genérico.


E posicionamento, no fim, é isso:

  • Recorte (o que você escolhe defender e repetir)

  • Coerência (o quanto isso aparece na prática)

  • Coragem (o quanto você não negocia sua essência pra caber)


O Super Bowl é a vitrine máxima da cultura de massa. E o Bad Bunny mostrou um caminho inverso do “mainstream pasteurizado”: ele colocou a própria cultura como centro.


Isso conversa muito com comportamento também: as pessoas estão cansadas de marca que só “fala bonito”.


no fim, é sobre isso: “mostre pro mundo quem você é”


O que aconteceu no Super Bowl é um lembrete ótimo pra qualquer marca que quer construir valor de verdade: Você pode comprar alcance, mas pertencimento não se compra.


Pertencimento é repetição de cultura. É consistência. É fazer o público reconhecer.


E quando uma marca consegue fazer isso, ela não “aparece”. Ela marca.

 
 
 

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